sexta-feira, 15 de março de 2019

Abraçando o Eu: Unificando




Há alguns anos, em uma reunião, um ser se dirigiu até mim e disse: “como pode, uma mulher que inspira tantas outras, mais velhas, mais novas, fragmentada desse jeito?”

Não é possível contar o número de vezes que voltei a esse momento. Busquei incessantemente os pedaços que faltavam em mim.

Revirei a minha história em busca das Talitas que havia deixado para trás, convidando-as a seguirem o caminho comigo.

Acessei cada trauma, cada dor, cada arrependimento, cada sonho não realizado. Colei os cacos e senti:

- Essas dores não são mais minhas; esses sonhos não são mais meus. Por que, então arrastá-los comigo?

Não estava li a resposta que eu buscava.

Até que, então, a fragmentação se apresentou com outra face: a da repressão.

Eu, reprimida? Não parecia possível, mas segui aberta à compreensão dos conceitos.

Para a psicanálise, o conceito de repressão seria:

“Mecanismo mental inconsciente, pelo qual as ideias ou os impulsos indesejáveis e inaceitáveis para a consciência são suprimidos por ela e impedidos de entrar no estado consciente. Este material indesejável não está geralmente sujeito à recordação voluntária consciente. A essência da repressão consiste em afastar uma determinada coisa do consciente, mantendo-a à distância (no inconsciente). Entretanto, o material reprimido continua a fazer parte da psique, apesar de inconsciente, e continua a causar problemas. Segundo Freud, a repressão nunca é realizada de uma vez por todas e definitivamente, mas exige um continuado consumo de energia para se manter o material reprimido.

Identifiquei a repressão em dois fluxos contínuos: de fora pra dentro e de dentro pra fora. Uma verdadeira compressão.

A força externa, como uma construção social, familiar e religiosa que nos diz quem e como devemos ser para sermos partes integrantes dos nossos grupos.

A interna, por outro lado, consiste em uma busca desenfreada pela luz, suprimindo uma infinita gama de impulsos conscientes e inconscientes, instintos e desejos, que poucas vezes encontram uma maneira equilibrada de serem expressados.

Ou seja, de um lado da corda estão os nossos impulsos primários (que reprimimos, por não sabermos lidar com eles) e, do outro, os sistemas aos quais pertencemos, que nos dizem exatamente como devemos que ser para nos encaixarmos, então criamos personas – uma para cada ambiente.

Lembrei-me da famosa frase de Simone de Beauvoir, que tantas vezes invoquei para repudiar toda e qualquer tentativa de limitação do meu ser, sem perceber a sua real profundidade:

“Que nada nos limite, que nada nos defina, que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância.”

Pedi ajuda ao tarô e, sem nenhuma surpresa, a carta que resumiu a situação foi o Diabo, a carta XV.

Esta carta está perfeitamente inserida entre a Temperança e a Torre.

Esse arquétipo surge quando estamos com os vasos cheios, equilibrados, plenos, colocando em cheque o nosso poder pessoal. O que quer que criemos não escapará à prova da torre: tudo que for filho do ego ruirá, todos os nossos castelos de areia.

Socorri-me de Jung. Abrindo o livro Jung e o Tarô em uma página aleatória, deparei-me com a imagem do quadro “A Cigana Adormecida”, de Rosseau, seguido da seguinte frase:

“O sono da cigana é visitado pelos sonhos de sua perdida alma animal; a fera, inquieta, fareja o mistério da humanidade, ansiando por tocá-lo.”

Havia, ainda, uma frase de Aniela Jaffé:

“Os instintos suprimidos e feridos são os perigos que ameaçam o homem civilizado; os impulsos não reprimidos são os perigos que ameaçam o homem primitivo. Em ambos os casos o “animal” é alienado de sua verdadeira natureza; e para ambos, a aceitação da alma animal é condição da totalidade e de uma vida plenamente vivida. O homem primitivo precisa domesticar o animal em si mesmo e fazer dele o seu companheiro útil; o homem civilizado precisa curar o animal em si e torna-lo seu amigo.”

Não, a página aleatoriamente aberta, apesar de integrada ao assunto, não tratava da carta do Diabo. Eu estava lendo sobre a carta XI, a Força.

No livro Criando União, de Eva Pierrakos e Judith Saly, o Guia nos ensina que “Não basta desenterrar a história de nossa infância e associar o relacionamento atual às primeiras experiências com o pai ou com a mãe, embora estas sejam muito significativas e forneçam muitas pistas. Também é preciso descobrir, no quadro de nossa alma, o eu inferior e seus efeitos. Sem olhar de frente o que menos nos agrada a nosso próprio respeito, não podemos entender por que não conseguimos fazer uma mudança significativa. Muitos problemas da área dos relacionamentos são provocados pelos sentimentos e pelos pensamentos ocultos no inconsciente. Esses pensamento e sentimentos não investigados têm uma lógica peculiar, errônea e infantil. Provocam conflitos na alma. Com a alma em guerra, como você poderia ter um relacionamento saudável com alguém? Os pensamentos e sentimentos contraditórios não resolvidos no eu precisam, em primeiro lugar, ser trazidos à luz. (...) As tendências destrutivas inconscientes só podem ser desfeitas quando são enfrentadas e entendidas.”

Para Jung, grande parte da comunicação que estabelecemos com o nosso inconsciente se opera por meios dos sonhos. Animais, objetos, sentimentos – para cada pessoa uma simbologia própria, repudiava as generalizações. Por isso, estabelecer uma comunicação com o inconsciente era, para ele, indispensável.

Peguei, então, a carta do Diabo nas mãos e, guiada por Sallie Nichols (escritora do livro Jung e o Tarô), passei a observá-la e entrei em contato profundo com o arquétipo, a ponto de experimentá-lo e senti-lo por vários dias.

Uma observação rápida do desenho já nos deixa confusos. Talvez seja, a confusão, o principal trunfo do Diabo.

O corpo do Diabo é formado por várias partes que, partindo da lógica, não se conectam – o que me lembrou das nossas diversas personas, do quanto tentamos nos adaptar aos ambientes, do quanto somos moldados. Acabamos nos tornando um acumulado de penduricalhos, cada vez mais afastados da nossa essência.

O Diabo tem seios artificiais e rígidos, remetendo-nos a um feminino mecânico e agressivo.

Com a mão esquerda, segura uma espada pela lâmina. A espada, como se sabe, é o símbolo do masculino e das altas hierarquias. Ele faz chacota com tudo isso. Simboliza um masculino desequilibrado e um instrumento mal utilizado (que fere a si mesmo).

Representa o poder desordenado. Gaba-se da sua invulnerabilidade. Arrogante e indiferente a qualquer poder que não seja ele mesmo.

Ou seja, ambos os princípios criativos em desequilíbrio.

Possui, ainda, asas de morcego, o que nos remete às forças que operam na escuridão, momento em que os seres humanos estão mais vulneráveis, mais desprotegidos. No momento em que abrimos a guarda, suga a nossa essência.

Jung segue ressaltando que não podemos deixar de nos atentar para o fato de que o ser que intitulamos Diabo é um anjo, um portador da luz que caiu dos céus. Em diversas pinturas antigas, a sua representação aparece como sendo a sobra do próprio Jesus, sugerindo que o Diabo está a serviço do Criador.

Existe, no antigo testamento, a seguinte frase:

Para que saibam todos, que do nascente ao poente, não há ninguém além de mim. Eu Sou o Eterno, e não existe nenhum outro! Eu formo a luz e crio as trevas; faço a paz e crio o mal; Eu, Javé, faço absolutamente tudo!

Certamente a escuridão faz parte do plano divino.

Na mitologia, grande parte dos deuses possui porção humana bastante destacada. Eles sentem raiva, sentem desejo, embriagam-se, arrancam cabeças.

Todas essas representações significam que possuímos, todos, parcela de escuridão. O Diabo representa a nossa sombra monstruosa, a nossa propensão para o mal, o nosso potencial de destrutividade, a nossa dificuldade em assumir a responsabilidade pelas nossas próprias escolhas, abrindo mão do nosso poder pessoal em favor das instituições.

Menciona Jung:

“Estar servil e inconscientemente preso, nem que seja ao mais altruístico dos códigos, marca tão seguramente uma pessoa como criatura do Diabo, quanto ser vítima dos próprios apetites animais.”

Ele representa o que rejeitamos em nós, o que não queremos ver e, então, não acessamos e não conhecemos – mas que rege a nossa vida a partir das profundezas.

Nesse sentido, novamente trecho do livro Criando União:

“Só quando existe coragem e honestidade para ver e aceitar no seu todo as emoções e os desejos prejudiciais; só quando é capaz de compreendê-los e avaliá-los completamente, é que se percebe, sem sombra de dúvidas, que eles são supérfluos como defesas e não servem a nenhuma outra finalidade.(...)
No decorrer do trabalho de um programa de autotransformação, tanto homens como mulheres deparam com padrões idênticos do eu inferior. Tomam conhecimento da falsa agressividade, hostilidade, violência, excesso de atividade, impaciência e recusa de esperar que os poderes cheguem à fruição no devido tempo. Também tomam conhecimento da falsa receptividade e da falsa entrega, ou seja, da negação da responsabilidade por si mesmo, da acomodação, da aceitação da linha de menor resistência. A tentativa de encontrar uma autoridade que assuma o que é, de fato, responsabilidade de cada um, é uma das formas de fugir à prestação de contas. Tanto homens como mulheres, portanto, precisam solucionar os mesmo problemas, porém sua interação se dá em um plano complementar e não idêntico. (...) Nada que permaneça oculto pode crescer; vocês sabem disso.

O descaso com as nossas fraquezas e a resistência em aceitá-las faz com que elas sejam projetadas constantemente no meio externo, como se agissem contra nós.

Precisamos trazer à consciência. Precisamos acolher e conhecer as partes reprimidas de nós mesmos.

É isso o que o Diabo nos fala: na escuridão reside o seu maior potencial de crescimento!

E ele pode nos ensinar a navegar na escuridão do nosso ser.

Repressão, fragmentação, dificuldade de lidar com o poder pessoal. Não podemos passar de certo ponto se não acessarmos o nosso “Eu Inferior”. Conhecê-lo e acolhê-lo constitui um trabalho indispensável de lapidação pessoal e de pacificação social.

A tão sonhada plenitude. A tão sonhada integridade. A tão sonhada unidade. Todas começam dentro de nós.

Lembrem-se, nós não somos as experiências, somos quem está experienciando. Nós aceitamos o propósito da experiência neste orbe, com a certeza de que o resultado seria positivo tanto para nós, quanto para o planeta.

Precisamos, apenas, tomar consciência do que ocultamos em nosso inconsciente, para que deixemos de projetar o nosso caos interior no externo. Precisamos deixar que os nossos “feios” e “errados” atravessem a fronteira, para que os vejamos, para que os sintamos e, então, sejam transmutados pela consciência e devolvidos ao planeta mais leves e mais elevados.

Somente assim passaremos a fazer escolhas mais sábias, mais responsáveis e mais alinhadas com os nossos objetivos. Somente assim teremos relacionamentos de valor, baseados na mais pura reciprocidade e conexão. Somente assim a nossa motivação será verdadeira e divina, pois livre da cisão que outrora havia entre a nossa consciência e a nossa inconsciência.

Durante esses dias de conexão com o arquétipo do Diabo (garanto que foram muitos), eu fui apresentada às mais diversas experiências. Em todas elas eu o via atrás de mim com as mãos em posição de suporte, como se dizendo:

- Tente agora com um pouquinho mais de força de vontade! Relacione-se com o seu animal e, ao lado dele, atravesse a floresta escura do seu ser. Assuma a responsabilidade pelas suas escolhas e, de fato, escolha – mas não use mais a mim ou a Deus como bodes expiatórios! Mantenha o foco no prazer: prazer de viver, prazer de se encontrar, prazer de crescer, prazer de se relacionar. Tire o foco do “o que” e coloque-o no “por que”, alinhando as suas ações e as suas motivações com os seus objetivos. Eu estarei aqui até o fim dos tempos para te lembrar que luz e escuridão são frutos da mesma árvore e que a integração da dualidade é uma riquíssima experiência.

Finalizo com um trecho do livro “Gente que mora dentro da gente”, de Patrícia Gebrim:

“Pois bem, imagine que antes de vir para cá, ainda lá no céu, ela tenha feito um trato com seu pai, o Sol. E o trato era mais ou menos assim: ela ganharia uma passagem de vinda para a Terra, e, em troca, ajudaria a curar um pouquinho do planeta. Não parecia demais; afinal, ela iria se divertir de montão, e ainda teria a oportunidade de sentir o aroma das flores, brincar numa cachoeira, ver o mais lindo pôr-do-sol e muito mais! Uma viagem e tanto, com direito a aprender um monte de coisas diferentes.
O preço parecia justo.
Depois que tudo ficou acertado, a estrelinha, feita da mais pura luz, mergulhou em direção à Terra e chegou no setor de recepção do planeta para conseguir um corpo no qual pudesse se aninhar. Tinha que ser um corpo de carne e osso, feito com a mesma matéria do planeta.
A chegada da estrelinha foi mais ou menos assim:
- Estrela: “Acabei de chegar ao planeta e preciso de um corpo onde eu possa me aninhar”.
- Guardião da Terra: “Seja Bem-Vinda! Você sabe que precisará dar uma mãozinha na cura do planeta enquanto estiver por aqui, não sabe?”
- Estrela: “Sei, sim. Pensei que eu poderia me responsabilizar por um pouco de inveja... hã... e talvez um pouco de tristeza também.”
- Guardião da Terra: “Que bom... Será que você daria conta de um pouquinho de ódio? Tem tanto por aqui... ia ser ótimo se você nos ajudasse a transformar um pouco em amor!”
- Estrela: “Acho que dou conta sim. Me dá também um pouco de medo, ok? Mas só um pouquinho.”
Aí, o Guardião da Terra separou uns vidrinhos com tudo o que a estrela tinha pedido, misturou com um pouco da terra do planeta, moldou bem e colocou a estrelinha lá dentro. Depois cuidou para que esse molde fosse encaminhado para a família mais adequada, uma família que a ajudaria a cumprir o que tinha prometido fazer durante sua estadia por aqui.
“Boa Sorte, Estrela!
Assim nascemos, poeira de estrelas disfarçada de gente, andando por aí. Tudo ia muito bem até que, em determinado momento de nossas vidas, ainda na infância, todos aqueles sentimentos que o Guardião da Terra tinha misturado no nosso corpo começam a acordar. E a sombra que mora no planeta começa a vir a tona através de nós.
Inveja, tristeza, ódio, medo...
Só para esclarecer, esse Eu, essa mistura de terra com todos aqueles sentimentos que precisamos curar, é o que estou chamando de EU INFERIOR, ok?
Todos nós temos um Eu Inferior. Relaxa, você não é o único!
Muitas pessoas se sentem culpadas por terem um Eu tão feio assim, que rosna e baba nas pessoas, isso sem falar nas mordidas que distribuímos por aí! Mas não há motivos para você se sentir mal por ter um Eu Inferior.
Sempre que você der de cara com o bicho feio que mora em você, lembre-se: esta é a sua chance de curá-lo e, ao fazer isso, você estará ajudando a purificar um pouco do planeta. E ISSO FOI O QUE VOCÊ VEIO FAZER AQUI.
Toda vez que conseguir se lembrar da sua luz, toda vez que conseguir transformar esses sentimentos negativos em algo melhor, cada vez que reciclar um pouquinho desse lixo que está dentro de você (e de todos nós), estará participando ativamente da cura da Terra.
Estamos de acordo?”

sexta-feira, 8 de março de 2019

Pra ser feliz!




Li esses dias que não há limites para o desvelar de uma alma.

Isso sempre foi muito claro para mim. Profundamente curiosa (ou curiosamente profunda).

É sempre possível ir mais fundo. É sempre possível compreender mais.

Hoje é um dia que me traz profundas reflexões. As minhas lembranças fervilham a ponto de me catapultarem constantemente do momento presente.

Apesar de me sentir bastante constrangida em dizer isso, mas em homenagem à minha verdade, posso afirmar que, durante esses 38 anos de vida, grande parte das minhas memórias mais dolorosas de agressão não envolvem homens (elas existem, mas não são tão dolorosas).

Bullying na escola – não era um menino. Agressão física – não era um menino. Críticas maldosas e julgamentos – não era um menino. Inferiorização – não era um menino.

Em algum ponto dessa história eu escolhi não reverberar mais esse corpo de dor e desejei ter relacionamentos de valor. Precisei encontrar o meu próprio valor e me relacionar comigo.

Tomei decisões difíceis, até mesmo incompreensíveis. A dor era tão lancinante, que eu só dava o próximo passo. Nada mais era possível.

Ainda consigo senti-la. Seria tão bom ter recebido o meu próprio abraço naqueles momentos (que eu receba o meu abraço).

Fisicamente em pé, emocionalmente largada ao chão, fui sacudida por uma mão firme e uma voz decidida: daqui pra frente vamos juntos!

Fomos desfazendo os nossos nós e as nossas malas aos poucos. Caminhamos, nós dois, cada vez mais sozinhos, pois, aos poucos, o passado e as pessoas foram dispersando.

Era mais que suficiente. Um representava a cura do outro. Havia reciprocidade e respeito às glórias e aos tropeços um do outro.

O meu feminino só floresceu, quando o meu masculino se posicionou e estabeleceu limites.

O masculino dele só se equilibrou, quando o feminino teve livre passagem e expressão.

Hoje, vejo meu jardim florido, rodeado por divinas rosas e sagrados beija-flores. 

Pessoas que me tocam a alma e abrem a porta do meu coração, que respeitam e honram o meu caminhar, que escolhem me impulsionar em vez de me criticar, que optam pela transparência, pela gentileza e pela colaboração.

Vejo os seus rostos, sinto os seus cheiros, ouço as suas vozes, sinto os seus abraços.

Hoje escolho celebrar a mulher que eu sou, as minhas raízes profundas, a firmeza do meu caminhar, a pureza do meu coração e a minha capacidade de inspirar.

Sê feliz, mulher.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Harmonia dentro, harmonia fora





Todos desejamos ver mudanças. Alguns de nós desejam até mesmo promovê-las, mas  nos faltam instrumentos.

Não sabemos exatamente o que fazer. Sentimo-nos ignorantes frente aos mistérios da manifestação.

Como tudo o que há, isso também tem uma razão de ser. A tão almejada liberdade para ser, para criar, para manifestar, é (e só pode ser) fruto de uma profunda lapidação interna.

Estamos em uma escola, na qual o tempo – do qual tanto reclamamos – é nosso parceiro. Ele nos concede a graça de podermos nos arrepender dos nossos desejos, tantas vezes fundados no ego e nos instintos.

Imaginem como seria se todos os nossos desejos tivessem sido realizados? Quantos deles teriam por base a vontade verdadeira da nossa alma e quantos teriam por base a nossa criança pirracenta, os desejos do nosso eu inferior?

Isso significa que tudo o que existe em nossas vidas é fruto de muita disciplina, de muita sustentação energética – consciente ou inconsciente (via de regra inconsciente, criações do ego para justificar as crenças limitantes que permeiam a nossa vida). Nenhum casamento, de repente, acabou. Nenhum ano da escola, de repente, foi perdido.

Perceber como participamos ativamente das manifestações da nossa vida, sejam elas boas ou ruins, é um ponto crucial para a nossa mudança de comportamento. Aqui reside a chave da autorresponsabilidade, a nossa passagem para longe da terra da vitimização, que nos mantém reféns dos nossos vícios e padrões.

O trabalho do Eu Inferior é obrigatório para que conquistemos a liberdade.

Em uma das obras do Pathwork, “O Guia” menciona que existem dois princípios básicos, os mais básicos de todos, que regem tudo o que há no universo. São a ativação e a aceitação.

A ativação consiste na ação deliberada, princípio ativo masculino. O ato de criar, de reivindicar, de provocar e direcionar uma força para uma finalidade.

A aceitação, ou princípio ativo feminino, nada mais é que o entregar-se, permitir o fluir da força posta em movimento, esperar com paciência e confiança.

Ambos os princípios estão presentes em todos os homens e todas as mulheres e não existe desequilíbrio de uma energia, sem que haja o desequilíbrio da outra.

O não agir, o terceirizar responsabilidade, o medo da vida, o fugir à prestação de contas, a submissão às vontades dos outros. Desequilíbrio.

O não confiar, o não saber esperar, o imediatismo, a ansiedade, a contenção do fluxo outrora posto em movimento, impedindo a manifestação. Desequilíbrio.

Conta, “O Guia”, que em muitas vidas nós acionamos as energias por meio de impulsos de agressividade, de brutalidade, de medo, e causamos muita destruição.

Assim, em outra vida, a fim de voltarmos ao equilíbrio, retornamos ao planeta com um grave desequilíbrio no outro aspecto, extremamente submissos, com a nossa força ativa completamente contida.

Quantas vidas mais sustentaremos desequilíbrios?

Quantas vidas mais temeremos as nossas próprias criações?

Quantas vidas mais nos recusaremos a assumir a responsabilidade pelo desenrolar das nossas vidas?

Estaria, o nosso inconsciente, ainda imerso em tanto negativismo, em tanta agressividade, em tanta hostilidade, para que tenhamos tanto medo dos nossos impulsos criativos?

Quais são os elementos que compõem a nossa psique? Onde tem estado a nossa atenção? Em que temos focado o nosso pensamento? Quais são os nossos gatilhos? Quais são os nossos excessos? Quais os padrões que reproduzimos? Podemos estar seguros em nossas criações, ou ainda há o que ser visto, limpo, purificado?

Essa é a hora. Não há mais tempo.

Eis o trabalho com a nossa energia masculina: readquirir segurança para o uso deliberado de uma força para uma finalidade.

Eis o trabalho com a nossa energia feminina: ter paciência para sustentar a energia posta em movimento, confiando que seguirá o seu caminho legítimo até a conclusão, até a sua maturação, no tempo de Deus.

Os seres precisam ser capazes de autodeterminação, de reivindicar o seu direito de serem felizes. Nesse sentido, o equilíbrio dos princípios criativos (ativação e aceitação), corresponde a grande parte desse trabalho, que, seguramente, acontece por meio das nossas relações mais íntimas. É por meio delas traçamos o nosso caminho de transcendência da dualidade.

Observem e observem-se.

Que esta seja a vida em que escolhemos agir em amor (entendido como consciência da unidade), e não mais em padrões de desequilíbrio que se alternam vida após vida.

Para finalizar, alguns trechos do livro “Criando União”, de Eva Pierrakos e Judith Saly:

“(...)“E dois serão um” – essas palavras, tantas vezes ouvidas na cerimônia nupcial, referem-se a muito mais do que ao início da vida comum de duas pessoas. Trata-se de uma afirmação cósmica. “Dois” – a dualidade – é a condição básica da nossa existência na Terra, e “Um” é o estado de unidade do qual nos distanciamos e para o qual ansiamos voltar.
(...)
A transformação daquilo que, dentro de nós, é a causa da separação, da nossa incapacidade de ter um bom relacionamento e permitir que o amor flua sem entraves, é a meta do trabalho do caminho do relacionamento.
(...)
Nossa ânsia por uma união mais profunda no amor com o outro é irresistivelmente poderosa graças à sua importância cósmica. Aqui vemos a ligação entre a nossa vida individual e temporal e a realidade maior que nos engloba.
Lembrem-se de que todo o plano da evolução trata da união, da junção das consciências individuais, pois só assim é possível abrir mão da separatividade. A união com uma ideia abstrata, com um Deus intangível ou concebido como um processo cerebral, não é uma união verdadeira. Apenas o contato real de uma pessoa com outra estabelece, na personalidade como um todo, as condições que constituem os pré-requisitos da verdadeira união e unidade interiores. Portanto, esse impulso manifesta-se como uma grande força, atraindo uns para os outros, tornando a separação dolorosa e vazia. A força vital, portanto, é permeada desse impulso em direção aos outros, e também de prazer supremo. Vida e prazer são uma coisa só. A vida, o prazer, o contato com os outros, a união com os outros são a meta do plano cósmico.
(...)
Com a ativação deliberada do poder criativo no máximo de seu potencial, pois vocês já não temem a própria destrutividade e confiam nos poderes universais que levarão a cabo, no devido tempo, aquilo que, intencionalmente, colocaram em movimento, desaparece o medo de entregar-se a um poder maior do que o voluntarioso ego-eu, e assim surge a capacidade de amar.
(...)
O desejo de entregar-se à vida nunca representará um risco de empobrecimento.”


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Sob o olhar de Marte





Todos aqui já ouvimos a expressão: “a era dos gurus chegou ao fim”.

Isso significa que a energia que está acessando o planeta está movimentando as pessoas de tal forma, que não é mais possível não se responsabilizar pelo próprio caminho.

Durante anos consumimos literatura, cursos, workshops, terapias. Reflitam: quais deles trouxeram resultados práticos na vida de vocês? O que trouxe uma mudança verdadeira de hábitos? Quais dons despertaram e movimentaram?

Acredito que poucos. A nossa sede era passiva. Queríamos encher os nossos copos.

Eis que Marte se aproxima e exige movimento, agilidade. Traz consigo o elemento fogo e a energia masculina.

Era o empurrão que estávamos precisando.

E Marte nos diz: só fará sentido o que for fruto de genuína experiência e nos proporcionar verdadeiras tomadas de consciência, efetivamente alterando os nossos padrões de conduta. Tudo haverá que se converter em prática.

Lembra-nos dos atributos do raio azul: a pró-atividade, a liderança, a coragem, o ímpeto, a realização da vontade divina, a concretização.

Durante muitas vidas, essa energia nos fez guerreiros. Eis que, agora, faz-nos construtores.

Estamos, todos, sentindo a necessidade de trazer a teoria à prática, de ancorar o masculino realizador, que estabelece limites, que está no centro do seu poder, que age em firmeza amorosa, que faz planos, que traça objetivos e que efetivamente os persegue.

A sustentação das energias que banharão o planeta partirá de grupos organizados e coesos.

A construção da nova sociedade partirá das relações que, hoje, vivenciamos.

O kin103, vigente na data em que o texto foi escrito, diz: “Ofereço-me para cooperar com amor, a fim de compartilhar a abundância em meu coração.”

Na interpretação de Margareth Souza:
Quando nos permitirmos viver nossa própria verdade com autenticidade, isso abre caminhos e oportunidades únicas para atuarmos em cooperação com os demais. Aquilo que você faz benéfica o coletivo? Essa é a nova ordem cósmica: agir individualmente e beneficiar coletivamente. Construir ou destruir está em suas mãos.”

Em Marte não há zona de conforto. Os seus ventos nos arrastarão até que coloquemos o nosso conhecimento em movimento, até que ofertemos ao outro as nossas experiências.

Um dia de cada vez, reconheça as suas virtudes e os seus valores.

Um dia de cada vez, alinhe o seu pensar, o seu falar e o seu agir.

Um dia de cada vez, resgate a sua dignidade e caminhe de cabeça erguida.

Um dia de cada vez, aja da forma mais correta, ainda que não seja a mais fácil.

Um dia de cada vez, seja o seu centro e o seu eixo.

Cada um de nós, um elo na corrente do bem.