quinta-feira, 18 de maio de 2023

Bay, um verbo.

 

 

Quem convive comigo sabe que eu pouco vejo algumas coisas. Também não tenho apego a datas e não me obrigo a celebrar ou a chorar ocasiões especiais. Grande parte do que é considerado socialmente importante, pode ser chocantemente desimportante para mim. 

Um acontecimento significativo, entretanto (e rapidamente), transformou-se em ponto de referência absoluto – como se fosse o único parâmetro temporal que, hoje, meu cérebro compreende. 

Foi quase um mês após o falecimento dela que eu senti o primeiro ar gelado do ano inundar os meus pulmões. 

Ela ainda estava viva quando as flores da babosa despontaram, mas foi poucos dias após a sua passagem que os botões se vestiram de laranja e passaram a ser visitados por vespas. Inclusive a babosa que ela havia podado e estava sendo honrosa e silenciosamente mantida no mesmo lugar (como um santuário) floriu.  

As folhas da cerejeira começaram a morrer junto com ela e algumas, ainda, resistem. 

A mirra estaria florida agora, não tivesse sido ceifada. Mas, assim como guardo o perfume da mirra em flor nos meus sentidos, assim também o seu permeia a minha vida.

O sol deixou de tocar o chão da horta. Isso aconteceu duas semanas depois que ela se foi. Assim como as plantas mais baixas, eu também perdi contato com o calor que sempre reputei indispensável. 

Para mim o inverno chegou mais cedo e, assim como as plantas, preciso encontrar dentro de mim as reservas de vida que me sustentarão até a primavera, quando espero, também, poder vicejar. 

Ainda ouço a sua voz e sinto as suas mãos nos meus cabelos. Kanarô, dizem os índios: eu sinto a sua presença (e não a sua falta). 

Caminho devagar, nutrindo-me de grandes amores e longos abraços. Ainda mais que antes, sei que cada minuto de conexão é santificado e revestido de preciosidade. 

Escrevo, não por dor. Mas para que, de onde estiver, ela compreenda e sinta e absorva o grande significado da sua existência: uma verdadeira referência. 

Bay, um verbo.

 

domingo, 30 de abril de 2023

Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar!

 

 


Quando abril começou, eu jamais imaginei que terminaria assim. 

O fechamento de um ciclo de aprendizados que, acredito, levará meses para ser assimilado. 

Assisti o meu maior medo tomar forma diante dos meus olhos. 

Eu a vi definir o que haveria de ser feito com o seu corpo e com as suas cinzas. Como o seu falecimento deveria ser representado no jazigo da família. O destino de suas roupas. Organizou papeis. Limpou gavetas. Deu conselhos. Solicitou visitas. 

Ela olhava nos meus olhos enquanto o médico sinalizava que o corpo dela não estava mais respondendo a nenhum tratamento e que o plano, dali em diante, seria mantê-la confortável. Estou certa de que ela compreendeu mais o meu olhar, que as palavras do médico. 

“Eu ainda tinha tantos planos” - disse ela com a voz trêmula. Eu também - desejei dizer, mas sem conseguir emitir nenhum som. 

Ela se permitiu desabar. Eu a abracei enquanto chorava, assim como, tantas e tantas vezes, ela me abraçou. 

Ela se permitiu silenciar. Ela se permitiu tocar. Ela se permitiu sentir. Ela se permitiu receber. 

Estive lá todos os dias (falo dos últimos 42 anos e não dos últimos 42 dias). Respiramos o mesmo ar nos dias bons e nos dias ruins. Dividimos os nossos pratos prediletos, assim como dividimos a comida do hospital.  

Eu sorvi essa experiência até o ponto de reconhecer a sua alma: uma grande e antiga alma amiga. Fui capaz de obedecer a (quase) todos os seus pedidos. 

Fiz o meu melhor para dignificar os seus últimos dias e para ajudá-la a ressignificar as dores da sua existência - que eram muitas. 

A sua inteligência natural foi se aprimorando e ela foi capaz de construir os seus últimos capítulos conforme o desejo do seu ser maior. 

Eu assisti tudo, absolutamente tudo, acontecer de forma perfeitamente encadeada, ordenada. Eu era capaz de sentir a força que operava o encerramento daquela experiência. 

Certo dia, ouvi: “o que você gostaria que fosse a última coisa que ela veria em vida?”. Sem precisar pensar, respondi: o meu olhar. Eu e ela sabemos que assim foi. 

Uma alma grandiosa que fechou uma existência. Não deixou reticências. 

Eu chorei com o seu sofrimento, mas não derramei uma lágrima de dor com o seu desligamento. Alegrei-me (eu sei, também estranhei) com a libertação da sua alma, que não podia mais fazer daquele corpo um lar. 

Algo de mim atravessou dimensões junto com ela e pode atestar: o verdadeiro amor não conhece o tempo, nem o espaço, nem a forma. 

Eu a sei viva. 

Eu a sei plena. 

Eu a sei família. 

Eu a sei existindo como sempre existiu. 

Fecho o mês de abril com um desejo que já sei realizado: que os nossos planos, de alguma forma e em algum momento, coincidam. 

Eu a reconhecerei.

"... Pois seja o que vier (seja o que vier)
Venha o que vier (venha o que vier)
Qualquer dia, amigo, eu volto
A te encontrar
Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar..."

quinta-feira, 20 de abril de 2023

Bay.

 


 - Era uma vez, a Ana Mais ou Menos. Morava com seus pais e seu irmão. - disse a Vovó, quando iniciou a saga das histórias na hora de dormir. 

 - E ela tinha uma Bay? - retrucou a Maria Júlia, que no auge dos seus quatro anos não conseguia imaginar a vida de uma criança sem uma Bay para chamar de sua. 

 Temos poucas fotos dela, que sempre exigiu não ser registrada, com a falsa expectativa de não ser lembrada. Entretanto, as suas mãos aparecem nas nossas fotos mais importantes. Segurando-me no colo no dia do meu batismo. Oferecendo a primeira papinha à Maria Júlia e a primeira mamadeira ao Felipe - construindo a independência necessária para que pudessem passar mais tempo com ela. 

Vivemos tudo juntas. Posso dizer que ela me apresentou a vida. 

Ao me ensinar a cavalgar, ensinou-me a amar os cavalos, a observá-los e a compreender o seu instinto: "Quando um cavalo se recusar a seguir em frente, simplesmente retorne ou contorne, certamente há um perigo". Ela falava sobre urutus e cascavéis, mas, na minha cabeça, ela estava falando do famoso corpo-seco. Esse dia chegou e eu retornei (assustada). Ventania era o nome do cavalo que ela me deu de presente. 

Ao me ensinar a dirigir, ensinou-me a importância de ser independente, mas, também, de estar disponível (poder partir ao resgate de qualquer um, a qualquer hora).  A primeira vez foi em um fusca azul (eu tinha 13 anos). Lembro-me do sentimento incrível de poder me autodeterminar. Algumas vezes, em meio à tarde, eu decidia andar a cavalo ou comer canjica quente no Purunã - eu me sentia uma pequena Bay nesses momentos. Meu primeiro carro foi compartilhado com ela. E o segundo e o terceiro. 

Ao me ensinar a falar a verdade, ensinou-me sobre confiança. Falar a verdade, ainda que fosse uma bem feia, era um ato digno de prêmio: "Sabendo a verdade, podemos descobrir como resolver o problema. O que vamos fazer com isso?". Jamais fui punida por falar a verdade e essa foi a base da mais linda construção que fizemos juntas: reciprocidade e cumplicidade. Entre nós jamais houve segundas intenções, comunicados indiretos ou meias palavras.   

Aprendi bem cedo que poderia confiar nela (e desejei ser, sempre, uma pessoa confiável). Minha irmã estava aprendendo a andar. Uma polaquinha de cabelos finos, quase brancos. Meu pai, ao descer uma rampa em marcha ré, não enxergou a Tamara. Ele sentiu o impacto e conseguiu parar o carro com o pneu traseiro a poucos centímetros de sua cabeça, a ponto de o seu cabelo curto ficar preso entre o piso e a borracha. Enquanto todos corriam e se desesperavam, ela simplesmente estendeu as pernas atrás do pneu e disse: passe por cima bem devagar, vou soltar o cabelo dela.   

Quando perguntavam a ela o motivo de não ter casado (apesar de ter sido noiva por duas vezes), ela respondia que jamais seria capaz de se submeter a alguém. Repudiava comportamentos permissivos. Essa foi a lição que eu demorei mais para aprender: posicionamento firme e amoroso (inclusive frente a ela). Apenas então eu conquistei o respeito dela, apenas então ela aprendeu a respeitar as minhas decisões (ainda que discordasse). 

Lembro-me muito pequena, chorando o medo de, um dia, perdê-la. Sua morte sempre foi meu pior pesadelo. 

 Eu estava parada na porta da cozinha e ela vinha em minha direção. Percebi algo do lado direito do seu pescoço que me causou arrepios - sequer tive coragem de alertá-la. Seu primeiro diagnóstico fui eu quem abriu. Lembro que a dificuldade de olhar nos seus olhos durou dias. Nada, nunca mais, foi igual. Esforcei-me para lembrar de como era a vida enquanto eu ainda podia pensá-la eterna. Todos os dias que se seguiram escondiam um sinal de alerta. Era quase como se tivéssemos perdido o direito ao futuro, como se não pudéssemos fazer planos. 

Eu recebi absolutamente tudo que ela me ofereceu. Eu aprendi tudo que ela me ensinou. Aprendi a ter valores firmes, a ser confiável, a ser independente, a ser comprometida, a ter palavra. Aprendi sobre a importância de servir. Aprendi sobre ser a minha própria régua e a não tomar decisões para agradar outras pessoas.   

Por outro lado, também aprendi que servir demais ou ser rebelde demais tem seu preço. Que nenhum ser humano é realmente independente como pensa ser. Que a autonomia pode ser apenas uma proteção. Que temos que arcar com as consequências das nossas escolhas.   

A percepção sobre a fragilidade e a efemeridade da vida trouxe consigo a necessidade de expressão. Havia mais a ser dito. Havia uma história a ser contada. 

Ela começou descrevendo um Natal. Apesar da abundância de alimentos, ela e seus onze irmãos raramente ganhavam presentes. Esse Natal seria diferente, pois um saco cheio de presentes repousou sobre o chão da sala. Ela descreveu a cena por completo (inclusive o entorno da casa da fazenda). Suas irmãs mais novas ganharam bonecas e ela ansiava por segurar a sua nos braços. Entretanto, o seu presente foi uma caneta - afinal, a Izabel era firme e decidida demais para ganhar um presente tão delicado. 

Depois, por duas vezes, sem a sua opinião ser solicitada, foi enviada para auxiliar seus familiares com a criação de seus próprios filhos. Perdeu a sua infância, mas, sem saber, criou os seus primeiros filhos.   

Passou necessidade. Perdeu a confiança nas pessoas. Silenciou seus próprios sonhos a ponto de perder o contato com as suas necessidades. Tornou-se um mistério (para nós e para si mesma).

Assumir que a conhecemos é pura presunção.   

Compartilhar suas últimas semanas de vida comprovou isso - e a minha curiosidade jamais será esgotada. Entrei, pela primeira vez, no quarto 120 sentindo-me totalmente preenchida. Quando saí deste quarto pela última vez, deixando o seu corpo sem vida sobre a cama, senti-me vazia da pessoa que ela havia se tornado. 

Dessa pessoa eu recebi pouco e dessa pessoa eu não sei quase nada. Mas a essa pessoa eu entreguei tudo. 

Durante o seu internamento, o tempo passava diferente, quase como se não existisse (o relógio do quarto sequer funcionava). As nossas conversas aconteciam em um nível de consciência até então não acessado por nenhuma de nós duas. Experimentamos o sentido mais profundo do estado de presença: o que não acontecesse agora, poderia nunca mais acontecer. Ainda havia tanto a ser dito.  Eu a amei todos os dias da minha vida. Mas o dia em que eu a amei mais foi o último. 

Meu silêncio interior foi rompido pela súbita percepção do tic-tac do relógio de parede. Trouxe-me à mente as batidas do seu coração (agora aceleradas).   

O amor dobrou os meus joelhos e me lançou ao chão.   

Abri mão da sua presença em minha vida, abri mão de voltar a ouvir a sua voz e de voltar a ver os seus olhos. Em um passo de fé que não mais acreditava ser capaz de dar, pedi a Deus que amenizasse o seu sofrimento, que a poupasse da dor e do trauma. 

Agora vou conhecer o mundo que a minha criança mais temia: um mundo em que ela não existe. 

 Mas, agora, posso ser, no mundo, o que ela mais admiraria: eu mesma.

 

quinta-feira, 28 de julho de 2022

Liberdade...

 


 

Liberdade.

Quase uma palavra de ordem.

Há dias estou vivendo essa temática e, em tudo o que vejo, encontro a antítese.

Em um texto, Og Mandino aponta que o grande diferencial do ser humano é o seu poder de escolha. Segundo ele, nenhuma outra criatura - física ou extrafísica - tem o direito de se autodeterminar como o humano (nem os animais, nem as plantas, nem os anjos).

Até certo ponto, esse fragmento de verdade faz sentido. O que eu me pergunto é: temos, de fato, poder de escolha?

Somos gerados a partir da combinação de cromossomos de duas pessoas. Nosso DNA registra a memória da evolução da nossa espécie - através de êxitos e dores.

Aqui, nosso primeiro balizamento, o genético. Nossos limitadores físicos e intelectuais.

Nascemos completamente dependentes.

Então, o primeiro engatinhar, os primeiros passos. A noção do eu e do eu entre uma multidão - de ser mais um (e não o centro do mundo).

Somos introduzidos em uma religião e lá somos apresentados à verdade. Dizem-nos: não mais questionem. Fazem-nos repetir os mesmos rituais e ler os mesmos textos - assim como nossos antepassados fizeram.

Afinal, o que seria do ser humano sem algo capaz de balizar o seu poder de escolha?

A família e a religião demarcam muitas das nossas fronteiras e pré-disposições. Desde muito novos, passamos a caminhar com a mochila cheia: nela estão os padrões, tudo o que devemos fazer para sermos amados, dignos e salvos.

Depois, a escola.

Lembro-me do primeiro dia de aula, na primeira escola. Sou capaz de sentir o cheiro que escapa pelos vãos da minha lancheira. Sinto uma folha longa de grama vibrando entre meus dedos pequenos, enquanto é mastigada por um voraz porquinho da índia.

Aprendemos a silenciar o corpo, a conter os impulsos. Não mais podemos dormir, comer ou correr a hora que bem entendemos.

Afinal, o que seria do ser humano sem algo capaz de balizar o seu poder de escolha?

Muitos de nós, nessa fase, já possuem algumas camadas de trauma. Caminhos neurais que agem como verdadeiros antolhos e cabrestos.

Já não mais perguntamos "por que"? Não mais nos espantamos com a cor do céu, nem com a dança das estrelas. Não nos ocupamos com as fadas vestidas de jasmim, nem com os estalos das paredes de madeira.

Tudo tem uma explicação lógica, cartesiana, materialista, repetitiva. Totalmente desconectada do mistério.

Aprendemos a andar de bicicleta. Conhecemos o mar. Subimos a primeira montanha. Cavalgamos. Viajamos. Ah, os pequenos momentos de liberdade.

Dentro do infinito espectro das possibilidades, passamos a escolher o comum, o pré-definido.

Vestibular. Profissão comum. Casamento. Filhos. Trabalho. Rotina. Aposentadoria.

Alguns de nós são capazes de se revoltar contra toda essa doutrinação. Batem o pé. Questionam. Abrem a mochila e jogam tudo fora. Passam a perseguir a liberdade. Viajam o mundo. Afastam-se da família. Deixam de conversar com Deus.  Até que descobrem: a demanda por liberdade também pode ser uma prisão. Em um planeta de terceira dimensão, liberdade sem responsabilidade pode trazer consequências materiais desastrosas.
 
Um dia passamos a entender: a liberdade é mental. Tudo o que se materializa deixa de ser livre - pois todas as escolhas passam a ser prisioneiras das consequências.

Não há para onde fugir e não há outro lugar - onde quer que estejamos, lá estão nossos genes, nossos padrões, nossos preconceitos, nossas crenças, nossos traumas.

Assim como O Alquimista, que encontra as suas respostas no ponto de partida, nós.

Cansados - e transformados -, voltamos às origens. À base. Aos alicerces de quem somos.

Para onde eu quero ir?

Como eu desejo me sentir?

Quais valores são inegociáveis?

Então, quem sabe, as balizas possam se tornar plataformas e poderemos começar a construir a pessoa que desejamos nos tornar.